Na beira de uma das praias mais preservadas da ilha, na companhia do barulho do mar onde surfa enquanto produz suas cervejas, Leonardo Gianotti Nonohay é um ser humano agradecido. Encontrou em Florianópolis o estilo de vida que mudaria sua história para sempre e em cima de um skate foi mais longe que poderia sonhar. Em sua cozinha "roots", conversamos com o Cuca, cervejeiro da Lay Back e sócio da marca que ajudou a criar ao lado de André e Pedro Barros.

Qual o início da sua história com a cerveja?
Sou natural de Porto Alegre e com 18 anos comecei a tomar cervejas importadas alemãs por indicações de um tio e assim fui desenvolvendo meu paladar desde cedo. Casei aos 22 anos (1998) e casualmente minha esposa é descendente da família dos irmãos Ruschel, fundadores da marca de cerveja Polka, uma das mais antigas no Rio Grande do Sul e que deu origem a Serra Malte na cidade de Feliz. Minha sogra também gostava de fazer cerveja, bebemos muitas vezes juntos e foi quando tive meu primeiro contato com a produção caseira. Surgiu então o desejo de um dia fazer ressurgir a tradição dos irmãos Ruschel, mas era um sonho distante e naquela época a cervejaria já tinha sido vendida para Ambev. Esse foi o início de como me tornei um bebedor atento às nuances de cada estilo.


Quando você evoluiu de apreciador para cervejeiro?
O tempo passou, me tornei advogado e passei em um concurso federal aqui em Florianópolis.  Morando nesse paraíso que é o Morro das Pedras, alguns anos mais tarde senti que era a hora de colocar em prática a velha ideia de produzir minha própria cerveja. Novas micro cervejarias estavam surgindo e em 2010 fiz meu primeiro curso de cervejeiro caseiro na Acerva (Associação dos Cervejeiros Artesanais de Santa Catarina), em Criciúma, e algumas especializações na Escola Superior de Cerveja e Malte, em Blumenau. Desde então, minha casa virou um laboratório com produção quase semanal.


Como você equilibra sua vida de advogado e cervejeiro?
Meu pai e meu avô eram advogados e eu gosto muito dessa profissão. Mas, na advocacia nós estamos sempre lidando com alguma situação triste que o cliente esteja passando na vida. Fazer cerveja é exatamente o oposto e acaba funcionando como uma válvula de escape. Beber cerveja é prazeroso e de alguma maneira estou contribuindo para esses momentos felizes. É bacana pensar que milhares de pessoas estão apreciando uma criação sua, que representa uma parte da sua história, de quem você é e no que acredita.


Como surgiu a parceria com o André e o Pedro Barros?
Nos conhecemos há alguns anos através do skate. Sou skatista desde a década de 70 e cheguei a ter uma pista particular em parceria com o meu irmão lá no Rio Grande do Sul, a Pakalolo. Infelizmente, dois anos depois da inauguração o esporte perdeu força no Brasil e nós fechamos o negócio. Me tornei advogado, casei e vim morar em Florianópolis, mas o skate sempre continuou vivo dentro de mim. Algum tempo depois fui assistir um campeonato mundial no RTMF Bowl, casa do Pedro Barros no Rio Tavares. Não acreditei ao ver caras da minha idade dropando uma das pistas consideradas mais insanas. Aquele virou meu objetivo de vida e foi assim que estreitei a amizade com os donos da casa.

 Lay back grind, foto Giovanni Mancuso

Lay back grind, foto Giovanni Mancuso

Quando começaram a pensar em fazer cerveja juntos?
Os dois também são grandes apreciadores de cerveja e lúpulo, já viajaram o mundo e experimentaram muita coisa. Então esse sempre foi um assunto muito presente em nossas conversas, além da nossa afinidade de paladares. Eles também sempre tiveram vontade de um dia produzir uma cerveja e a ideia era que ela fosse criada para ser a representante do skate, assim como a Bintang é a representante do surfe na Indonésia. Um dia, provando a reprodução da minha primeira cerveja caseira decidimos que aquele seria o estilo e o sabor do primeiro rótulo da nossa cervejaria, que ainda nem tinha nome.


Como nasceu a marca Lay Back?
Tivemos algumas ideias para o nome, mas nenhum encaixou tão perfeitamente como Lay Back, já que essa é uma manobra tanto do skate quanto do surf e esse é exatamente o estilo de vida que nos acompanha até hoje, integrantes do RTMF (Rio Tavares Mother Fuchers). Além disso, quando você decide tomar uma cerveja, a ideia é relaxar e a tradução da palavra para o português tem exatamente esse sentido, recostar.


Qual foi a inspiração para criar a Pilsen?
A ideia era fazer uma cerveja que substituísse a Heineken nos nossos encontros entre amigos. Um objetivo ousado e nossa principal referência foi a lupulada escola americana. Viajamos para fazer pesquisas na Califórnia, ouvimos diferentes opiniões e levamos em conta diversos fatores para desenvolver uma cerveja com sabor, aroma e personalidade. Buscamos ingredientes que não são comuns numa cerveja clara, então ela é mais encorpada, mais amarga e com final seco que convida sempre para o próximo gole.


E o segundo rótulo é ainda mais lupulado.
Queríamos logo ter a nossa própria IPA e a ideia era fazer algo diferente das outras que já existiam. Começamos a provar novas variedades de lúpulo que estavam sendo desenvolvidas nos EUA, como o Apollo que hoje faz parte da nossa composição. Optamos também por usar uma carga menor de maltes especiais para que ela fosse clara, menos encorpada mas com o mesmo teor alcoólico, aroma e amargor característicos desse estilo. O resultado foi uma cerveja não filtrada de alta fermentação que homenageia as cervejas claras americanas produzidas antes da Lei Seca, agregando as características originais dos novos lúpulos híbridos desenvolvidos no Vale de Yakima, meio oeste dos Estados Unidos.

“Se você não está bem ou feliz, deixe para fazer cerveja outro dia. Ou tome uma boa cerveja, espere alguns minutos e veja como se sente”. Você não pode fazer uma boa cerveja de mau humor.

 

Qual o alcance da Layback hoje no Brasil?
Em 3 anos já chegamos em 9 Estados. Temos bastante força na região Sul, principalmente em Santa Catarina, Brasília e agora atuando com mais intensidade em São Paulo já que iniciamos uma nova produção cigana por lá.


Como é a Layback em campeonatos cervejeiros?
Gostamos de liberdade para criar e concebemos nossas cervejas sem impor muitos limites de estilo. Por isso, muitas vezes não nos enquadramos nas avaliações dos campeonatos, mas o bacana de participar das competições é receber o feedback dos jurados que apontam detalhes importantes para a evolução das nossas receitas.


Quais suas referências hoje?
Sempre fui apreciador da Escola Americana, apaixonado por lúpulo e curioso sobre o assunto. Com o passar do tempo, percebi a importância de conhecer as outras escolas que também têm muito a contribuir. Recentemente fiz viagens para Alemanha, Bélgica, França e Suíça e cada local possui peculiaridades em sua produção. Por isso, nesse momento estou estudando e buscando referências nessas escolas mais experientes do velho mundo. Algumas cervejarias tradicionais belgas, por exemplo, até hoje usam métodos considerados ultrapassados, mas produzem cervejas aclamadas no mundo inteiro. É importante conhecer tudo isso, manter a mente aberta e criar sua própria mistura. Essa liberdade é o mais legal.


Você tem um estilo preferido?
Meu paladar hoje está bastante diversificado. Eu escolho a cerveja conforme a situação, o humor ou a comida.  No momento estou experimentando novos estilos. Na minha viagem até a Bélgica em fevereiro deste ano, fui no Bruges Beer Festival 2017 e foquei mais em cervejas que nunca tinha provado, misturas inusitadas e novidades no mercado. Também tive a chance de provar rótulos que são muito caros no Brasil e lá saíam direto do barril, como a Deus ou as Lambic. Hoje seria difícil definir um estilo preferido, já que tenho me surpreendido muito com algumas descobertas.

Alguma novidade a caminho?
Recentemente lançamos nossa terceira cerveja, uma Session American Lager mais suave e com menor teor alcoólico que a nossa Pilsen. Mas os testes nunca param e no total temos seis receitas aprovadas pela marca, como uma American Belgian Ale com lúpulos americanos e levedura belga, uma Brown Ale, entre outras surpresas.


Além do skate, qual o publico da Layback?
A Layback nasceu para apoiar o skate e é feita por skatistas. A identificação com esse público é natural, mas nossas cervejas também têm boa aceitação nos bares ou entre os profissionais do meio. Para nós, o mais gratificante é quando alguém que já provou pede novamente pela cerveja. Esse é o grande objetivo.


Algum dia você imaginou onde suas grandes paixões poderiam te levar?
Aprender a fazer cerveja e voltar a andar de skate foi uma combinação que trouxe outro ruma para a minha vida. Jamais imaginei conhecer outros países ou andar nas pistas dos meus sonhos, mas tudo aconteceu no momento certo.  Acredito que todas essas coincidências possuem um significado e só acontecem quando você está alegre, fazendo o que gosta e acreditando no que faz.


Qual sua maior lição como cervejeiro?
Aprendi que é importante fazer tudo com amor e assim os caminhos se abrem naturalmente. O britânico Steve Huxley fala sobre isso nas primeiras paginas do seu livro Cerveja, Poesia Liquida: “Se você não está bem ou feliz, deixe para fazer cerveja outro dia. Ou tome uma boa cerveja, espere alguns minutos e veja como se sente”. Você não pode fazer uma boa cerveja de mau humor. A cerveja é uma bebida viva e toda energia ao seu redor influencia no resultado final. Esse seria o meu principal conselho.